Tebas (retrato de sonho)

São nove horas sem dormir, nove horas deitado entre sonhos.
... alguém veio ter comigo, não me lembro bem quem ou como, se cedo, se tarde. Explicou-me que há vida depois da morte ou pelo menos que nós continuamos algures. Pois decidi morrer, assim. Tinha de atravessar Lisboa, chegar ao ponto de partida para lá. A cidade tinha uma luz forte mas cega, sem origem. As esquinas escondiam-se em contrastes de branco e breu. E o chão, esse, coberto de água, 1 metro, 2 metros, 4 metros. Fui a deslizar nas águas de uma velha cidade, percorrendo sua esquadria dentro de uma bota, remando. Encontrei poiso a meio da Rua Augusta, numa mesa flutuante. Comi a sandes que trazia comigo. Já tinha dito adeus a quem me fazia companhia. Já tinha dito: adeus. Remei até ao fim da linha. Esperei. O meu autocarro viria aí. Esperei. É verdade que ele viria a passar mas também o é que eu não tinha bilhete. Pensei nos meus últimos momentos. Não me recordo de alguma vez ter sido tão feliz como enquanto estava dentro daquela bota, cruzando as ruas da minha imaginação sobre águas. Nem quando há meses descobri o lado de lá do mundo ao atravessar a encosta. De similar tenho o estar rodeado de água em ambos e ter aí provado a verdadeira sensação de calma quando...

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