terça-feira, novembro 09, 2004

Expurgo antes de te ver

Uma caixa vermelha. Uma caixa vermelha com um "i" no topo. Tem tudo o que precisas. Oferece-te de graça toda a informação que possas querer, mas será que te dá uma direcção? Saber mais é saber o que queres?
É interactiva, tal como quase tudo hoje em dia, até as pessoas. O que sempre quiseste saber e o que não te faz falta nenhuma, está lá. É como se estivesses a falar com uma pessoa e todos os cinco minutos te interrompessem para publicidade.
Resume-se a carregar nos botões correctos mesmo quando não devesses. Mas e se estiver fora de serviço? Então, já és crescidinho, não precisas de um painel de informações para toda a tua vida! Não te ensinaram nada? Eu sei... a fila é longa e quando chega a tua vez faltam cinco minutos para acabar o horário de expediente, mas podes sempre voltar amanhã. Abre a porta às sete da matina e basta esperares umas horas e depois resolvem o teu problema, nem que seja para ouvir que a tua doença é incurável e que tens de ser forte, habituares-te à ideia. Mas afinal ainda acreditas que a vida deve-te uma resposta?
Se quiseres podes comprar uma caixa vermelha só para ti. Basta ires ao canal das compras. Tem vários módulos de conversação, o 'inconsequente', o 'perda de tempo' e o 'conversa política informal sobre como isto vai tudo mal, num banco de café enquanto se enfia no nariz o dedo que faz falta no rabo'. Vais ver que com isto até vais deixar de precisar de companhia humana, podes falar com o teu ecrã pessoal que não se esquece de perguntar como te correu o dia e de te lembrar que no fim, se conseguires pagar todas as tuas prestações, vai correr tudo bem.
Se não te importares de vender os teus pais até pode ser que um dia possas vir a ter o novo modelo "livre de preocupações". Assim podes vir a esquecer-te que és socialmente inapto, que não fazes mais nada do que trabalhar e que todos os teus interesses estão na ponta do dedo, aquele que carrega no comando da televisão.







Escrevo isto antes de te ver para poder beijar-te sem ter os lábios sujos de mim.

Faz frio no paraíso

Aqui consome-se e cultiva-se. Cá em cima não falta trabalho, reformas, agrárias, minorias e banalidades. Há de tudo um pouco quando o que falta é a variedade de substância, é o céu dos integrados, dos integradores mas sobretudo dos que também o querem ser. Estatuto é um conceito fluido.
- Queres ser como eu? Então segue-me.
Trabalha-se pouco ou quem sabe nem por isso. É preciso sobretudo manter as aparências, aqui só isso é uma conquista. Podes estar não pertencer, ou talvez não fazer nada, fungindo aos escrutínios, talvez caias de encontrão.
Cruzam-se disponibilidades, aqui é suposto viveres para ele, só depende de ti não te deixares apagar no cinzento que as roupas coloridas não permitem enxergar na totalidade, pelo menos para quem só as vê ao longe. Passeias pelos corredores, impecáveis tuneis de mármore vazio, passas à porta dos anjos, olhas, daqui a pouco estarás lá dentro, ver, ouvir. Cumprimentas teus conhecidos, não há falta deles, talvez encontres um amigo, no fundo, ao canto, com um bocado de sorte à janela, a olhar lá para fora. Mas aqui não é pecado não gostar dos outros , nem fingir que se gosta. Depressa aprendes a não ligar a sorrisos mesmo que não os consigas ler porque aqui tens futuro. Faz frio por entre as secções administrativas e sobra espaço entre as pessoas, tal modo que que quando dás por ti és regido por um punhado de artificialidades, mão cheia de 'podia fazer-me o obséquio' e 'concertezas', uma verdadeira roda-vida. Aqui a mente não estagna, só o espírito.
Conheces o conceito de inferioridade? Não faz mal, ainda vais a tempo. Sabes que ninguém vai concordar contigo, porque foste o úlimo a chegar, de nada te serve o teu lugar cativo. Existe quem te defenda, os apoiantes integrados. És de uma classe e tens de respeitá-la mas e se ela não te disser nada? Qual a importância. Tens os princípios, tens os valores, és sub-alterno do costume geral que te incute nervosismo, irritação. A criação é reduzida a trocadilhos, piadas inteligentes, cafés intermináveis e fotocópias da bíblia em trinta volumes, a saber piamente. De que te serve seres anjo se nunca vais salvar ninguém? Passem-me o diploma de mimo, sempre é mais adequado. Eu sei que este Deus, este, diz isto mas será que eu sei o que estou a dizer? Conseguirei acreditar?
Obrigam-te quase religiosamente a saber as opiniões dos outros e depois levianamente te dizem que na realidade tudo é diferente e nada se aplica. Como se alguma vez pudesses guardar os outros se não sabes ser o teu próprio anjo.
O hábito faz o monstro, as asas a besta.
Eu sei aquilo que se me chama e aquilo sobre o que falo.