sábado, agosto 07, 2004
quinta-feira, agosto 05, 2004
C. B. 1908
À minha frente, vejo-te a ti caminho. O arco de arvoredo que crias perante mim, a tua entrada, para o "esse" sibilante que vejo afastar-se dos meus dedos. Sempre soube o que queria na tua paisagem, a solidão, a tonalidade de emoções, a brisa que me prende à terra, leve de Outono. Pergunto quanto tempo vou andar na tua direcção, atravesso pinheiros e araucárias, na sombra de quem é mais que eu. Resta-me lembrar da noite, esta, aquela e a outra, em que as mãos pareciam fantasmas percorrendo os corpos, numa cama que nunca foi nossa e onde apagamos a nossa identidade. Não vejo um fim nem um início. Saudades tenho do beijo às riscas que nunca cheguei a dar, dos cafés que sabem a frança e dizem "por cá", do cigarro esquecido na mão esquerda pois afinal o objectivo do beijo é perdermo-nos no tempo. Se me devolvessem o "rien faire" de criança, ou melhor, a fase de descoberta do que é bom, o viver à custa do prazer da tua dor. Se eu te vi antes foi um sonho, naquele sítio que me faz lembrar uma piscina sem água, quando ainda vivia em função das refeições diárias, quando me deitava em alguém que não eras tu e via-te olhando-me no chão velho, respirando. Adorava essas tardes de calor, sem compromissos, para contigo e com os outros, numa altura em que ainda não sabemos para que lado está o corpo, em que direcção ele aponta pois ainda está escuro, só com o passar dos anos é que a claridade invade-nos, a bem ou a mal, para nos conduzir para o mar, seja a salvação ou perdição. Para trás pegadas molhadas que não servem para lembrar ninguém, que assinam o efémero que as imagens da nossa vida são. Apagando-se.


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